A Relação Terapêutica na Terapia Comportamental
Maly Delitti1 Baixar o artigo em:
Resumo: O objetivo deste artigo é discutir a relação terapêutica
como fator importante para a terapia. Algumas variáveis
implicadas na relação serão consideradas, pelo fato de atuarem
diretamente na relação terapeuta-cliente, sendo a sua análise
primordial para entendimento da interação. Finalmente, haverá a
exposição de casos clínicos para ilustrar os aspectos abordados.
Palavras-Chave: Terapia, relação terapêutica, autoconhecimento,
audiência não-punitiva
“Supõe-se que (…) a terapia do comportamento é exclusivamente
uma questão de idear contingências reforçadoras, mas ela também
inclui, de forma bastante apropriada dar ao paciente avisos,
conselhos, instruções e regras a serem seguidas” Skinner
(1974/1999)2, p.159.
A relação terapêutica, segundo o enfoque da Terapia
Comportamental, é um dos aspectos importantes do processo
terapêutico.
Desde a década de 70 este assunto é abordado por estudiosos da
área como Kanfer e Phillips. Estes autores consideravam que os
fatores de relacionamento eram muitas vezes determinantes da
mudança do repertório comportamental do cliente e que os
comportamentos do terapeuta faziam parte de um conjunto de
variáveis que podiam aumentar ou diminuir a eficácia das
técnicas comportamentais. Isto quer dizer que a atuação do
terapeuta, através do impacto de suas características pessoais e
de sua interação sobre os comportamentos do cliente, era fator
primordial para a adesão do cliente à terapia.
Nesta mesma direção, Rimm e Masters (1974) fizeram menção à
importância da empatia para a relação terapêutica. Segundo os
autores, “nenhuma terapia pode ocorrer se o cliente perceber seu
terapeuta como frio e indiferente” (p.35).
Desta forma, percebe-se que uma relação terapêutica duradoura é
aquela embasada num sólido vínculo terapeuta-cliente, vínculo
este que se torna estímulo reforçador para que o cliente
progrida e seja perseverante nas tarefas comportamentais
propostas pelo terapeuta.
Goldried e Davison (1975) enfatizam este aspecto em seu livro
“Clinical Behaviour Therapy”, onde afirmam:
1 Mestre e Dra em Psicologia IPUSP - Profa PUC- São Paulo.
E-mail: malydel@uol.com.br
2 Sempre que na referência de alguma obra aparecerem duas datas,
a primeira indicará a data de publicação original da obra e a
segunda, a data da publicação da obra consultada.
Agradeço à psicóloga Silvia Groberman por sua colaboração
durante a elaboração deste texto.
Qualquer terapeuta comportamental que afirme serem os princípios
de aprendizagem e da influência social tudo o que precisamos
conhecer para produzir mudança no comportamento, está desligado
da realidade clínica. Temos conhecido terapeutas capazes de
conceitualizar problemas segundo a linha comportamental, mas
apenas em poucas oportunidades, demonstraram sua eficácia;
muitas vezes estes terapeutas têm dificuldade de conservar seus
clientes em terapia, sem falar de conseguir que os clientes
sejam perseverantes na execução de tarefas comportamentais
(p.55).
Ainda segundo Goldried e Davison, “a tecnologia comportamental
deve se expandir para incluir não somente os instrumentos de
tratamento, mas também as interações entre o terapeuta e o
cliente desde o primeiro contato até a alta final” (p.57).
A literatura atual mostra que os analistas do comportamento têm
realizado pesquisas, definindo e categorizando os comportamentos
do terapeuta e desenvolvendo metodologias de pesquisa que possam
ser aplicadas em situações clínicas, sem perder a perspectiva
científica e operacional como método eficiente de avaliação (Zamignani,
1996; Banaco, 1997; Delitti, 2002; Wielenska, 2002). Muitas
destas pesquisas preconizam o estabelecimento da relação
terapeuta-cliente como condição essencial para o manejo de
contingências terapêuticas bem como a adesão ao tratamento.
Diante de todas estas considerações, o objetivo deste artigo é
discutir a relação terapêutica como fator fundamental para o
processo clínico, tendo em vista a Análise Experimental do
Comportamento.
A Relação Terapêutica e as Mudanças Comportamentais
Um dos objetivos da terapia comportamental é promover mudanças
no repertório do cliente. Dito de outra forma, o processo
terapêutico pode ser considerado como um processo de
ensino-aprendizagem, no qual o terapeuta visa modificar
(extinguir/instalar) comportamentos antigos que não mais são
considerados adaptativos ao cliente e/ou ensinar novos
comportamentos que possibilitem uma melhor interação com o
ambiente.
Mesmo havendo uma vasta literatura que estude o assunto,
conforme foi mostrado anteriormente, há ainda lacunas a serem
pesquisadas, principalmente pelo fato de na clínica não haver um
modelo experimental que observe os rigores exigidos, como em
pesquisa básica. De acordo com o estudo teórico produzido por
Rosenfarb (1992), poucos pesquisadores e clínicos se dispuseram
a traçar relações entre os princípios desenvolvidos no
laboratório e as mudanças comportamentais que ocorrem no
contexto da relação terapêutica. Isto porque no contexto
terapêutico os comportamentos emitidos pelo terapeuta e cliente
ocorrem na própria sessão, havendo dificuldade de uma atenta
análise pelo fato, de muitas vezes, tais comportamentos estarem
sob controle de encobertos. Rosenfarb sugere vias alternativas
para a pesquisa na área
clínica, como partir das discrepâncias entre comportamento
verbal e não-verbal do cliente e o comportamento do terapeuta
como parte do controle recíproco e, portanto, como estímulo
discriminativo (Sd) para o comportamento do cliente.
A partir do momento que há um controle recíproco na díade
terapeuta-cliente, a terapia pode ser considerada um processo de
influência mútua e ocasião de aprendizagem na qual o terapeuta
poderá instalar comportamentos mais adequados, treinar
discriminações de encobertos e planejar a generalização destes
padrões para a vida do cliente. Assim, a história de
aprendizagem que ocorre na interação terapeuta-cliente é uma
variável de mudança; daí a importância do terapeuta ser uma
figura reforçadora para o cliente (Follette, Naugle e Callaghan,
1996).
Quando o cliente entende a relação terapêutica como uma relação
onde é cuidado e apoiado, ele começa a revelar informações,
sente-se protegido, confia no terapeuta; identifica este
relacionamento como especial, diferente do que tem com outras
pessoas. Como conseqüência, as respostas adquiridas e reforçadas
nesta interação freqüentemente se generalizam para outros
ambientes, ficando sob controle das contingências naturais.
A Díade Terapeuta-Cliente
Uma vez que a situação de terapia é caracterizada pelas
interações comportamentais entre terapeuta e cliente, cabe
analisar cada um separadamente, a fim de compreender como
ocorrem tais interações.
O Terapeuta: É na sessão de terapia que o terapeuta tem a
oportunidade de analisar e modificar o comportamento do cliente,
via relato verbal. A prática terapêutica, então, baseia-se
essencialmente na interação verbal, instrumento que tem sido
muito utilizado pelos terapeutas para ter acesso aos
comportamentos encobertos do cliente.
Levando em conta tais considerações, entende-se porque a Terapia
Funcional Analítica (FAP – Kohlenberg) preconiza a importância
do terapeuta criar condições para que os comportamentos
clinicamente relevantes (CRBs) do cliente sejam emitidos durante
a sessão. Os comportamentos de esquiva emocional, dificuldades
de comunicação, agressividade e outros que são emitidos na
sessão, costumam ser os mesmos que o cliente emite fora dela, e
através da relação com o terapeuta é que se torna possível haver
a mudança para padrões mais adequados. Devido a este fato, desde
o início do processo, o terapeuta deve ter como objetivo
estabelecer-se como uma fonte de reforçamento social, ou segundo
Skinner (1953/1998) uma audiência não-punitiva, pois é a partir
deste poder de reforçamento do terapeuta que muitos eventos da
terapia se desenvolvem. Estudos realizados em situação de
terapia mostraram que a expectativa e a
percepção que os clientes têm acerca do terapeuta e da relação
influem diretamente sobre os resultados da terapia (Ford, 1978)
Por ser uma figura significativa, o terapeuta muitas vezes serve
de modelo para o cliente. Conforme afirmam Goldfried e Davison
(1975):
(...) Por isso, o terapeuta deve estar sempre consciente do seu
impacto sobre o cliente, fazendo todo o esforço para dar modelo
de comportamentos, atitudes e emoções que possam acelerar o
progresso terapêutico. Exemplificando, os clientes podem expor
problemas que fazem parte da própria experiência pessoal do
terapeuta. O terapeuta pode muitas vezes usar suas próprias
experiências de vida para ajudar na mudança do comportamento do
cliente (p.61).
Pode-se afirmar, portanto, que o terapeuta, no início do
processo terapêutico, deve procurar reforçar toda uma ampla
classe de comportamentos, que poderia ser denominada de
“comportamento de ser cliente”. Sem esta classe, a terapia não
ocorreria.
Entretanto, o terapeuta deve ter bem clara a diferença do
emprego do reforçador natural e do arbitrário. A este respeito,
Ferster (1967) acrescenta que o reforçamento natural ocorre sem
planejamento e o terapeuta dele se utiliza quando o seu
comportamento está sob controle do comportamento do cliente. A
utilização do reforço natural na relação terapêutica aumenta a
probabilidade de generalização dos comportamentos do cliente
para a situação natural. Quanto ao reforçador arbitrário, o seu
uso deve ser contingente a comportamentos do cliente que
freqüentemente são diferentes daqueles reforçados no seu
ambiente natural. Assim, o reforçamento arbitrário é efetivo
para a modelagem de determinado comportamento, mas como apontado
anteriormente, para que o comportamento aprendido seja
generalizado e mantido no ambiente natural do cliente,
gradualmente o reforçamento arbitrário deve ser substituído pelo
natural.
Ainda com relação à utilização do reforçamento no processo
terapêutico, Folette et al (1996) afirma que o terapeuta pode
liberar dois tipos de estímulos reforçadores: o geral, que
implica em reforçar todos os comportamentos da classe “ser
cliente”, como: vir à sessão, esforçar-se em mudar, emitir
comportamentos alternativos aos comportamentos queixa,
auto-revelação; enfim comportamentos cuja função é estabelecer e
manter o repertório necessário para a aprendizagem de novos
padrões comportamentais; e o específico, que o terapeuta deve
fazer uso depois que já tenha se constituído numa figura
significativa para o cliente, e portanto, um estímulo reforçador
natural, para reforçar os comportamentos alvo, que vão ficando
cada vez mais específicos.
Nota-se que as definições de tipos de reforçadores que estão à
disposição do terapeuta para uso no processo não são
excludentes, mas sim complementares. Por exemplo, ao mesmo tempo
em que um estímulo reforçador é natural, pode ser específico
para determinado tipo de comportamento alvo; ainda, o mesmo
estímulo reforçador pode continuar sendo natural, mas geral para
outro padrão comportamental. O interessante é sempre fazer a
análise da contingência em
vigor para identificar quais estímulos estão controlando o
comportamento em questão e verificar a sua funcionalidade. Feito
isto, o terapeuta terá mais clareza do esquema de reforçamento
vigente.
Outras variáveis que devem ser levadas em consideração
referem-se a determinadas características pessoais do terapeuta
que podem facilitar ou dificultar a mudança comportamental.
Habilidades sociais não substituem conhecimento teórico, mas
terapeutas que se mostram mais seguros, flexíveis e afetuosos
costumam ter mais sucesso em seu trabalho.
Banaco (1993) chama atenção para o impacto que o cliente pode
ter sobre o terapeuta. O autor refere-se a temas como: valores
morais ou religiosos muito diferentes; identificação do
terapeuta com o problema do cliente; desrespeito do cliente em
relação ao terapeuta, e outros. É comum, principalmente no
início de seu trabalho, que os terapeutas possam apresentar
dificuldade no estabelecimento da relação terapêutica, ficando
sob controle das regras aprendidas de seus professores e
supervisores. Não conseguir ficar sob controle das contingências
da sessão e deixar de ouvir o discurso do cliente ou de
discriminar todos os SDs da situação são exemplos desta
dificuldade3. A supervisão e o aprimoramento constantes, bem
como a terapia pessoal são recursos recomendáveis para
solucionar este problema.
Existem muitos estudos que abordam classes de comportamento do
terapeuta que pedem favorecer a relação com seu cliente. Os
trabalhos clássicos de Rogers (1957) enfatizam a importância da
empatia, da compreensão, e a aceitação. Outros autores como
Kanfer (1970), Wielenska (1989), Banaco, R. Zamignani, D.R e
Kovac, (1997) também estudaram classes de comportamentos do
terapeuta e todos parecem concordar que além de ficar sob
controle de regras, é importante que o terapeuta fique atento às
contingências da sessão bem como a dicas de seu próprio
comportamento e de seus eventos internos.
O Cliente: O cliente pode procurar o terapeuta com queixas mais
ou menos específicas; sabe que algo está incomodando ou causando
desconforto, isto é, identifica alguma situação aversiva e/ou
déficit em seu repertório. Por outro lado, há clientes que ao
procurar terapia, dizem não ter nada de especial para discutir,
mas que gostariam de autoconhecer-se.
O autoconhecimento tem um valor especial para o indivíduo. Na
terapia, através de perguntas ou comentários que o terapeuta
faz, o cliente fica mais consciente de si mesmo, ou seja, é
capaz de prever e controlar o seu próprio comportamento mais
adequadamente. Indo de encontro a este fato, Skinner (1989/1995)
afirma que “a psicoterapia é, freqüentemente, um espaço para
aumentar a auto-observação, para trazer à consciência uma
parcela maior daquilo que é feito e das razões pelas quais as
coisas são feitas” (p.47). Dito de outra forma, o terapeuta tem
como objetivo ensinar o cliente a discriminar comportamentos
abertos e encobertos e criar condições para que ele inicie um
tipo de controle do comportamento denominado conhecimento.
3 Para facilitar esta aprendizagem os supervisores de Terapia
Comportamental da PUC/SP fazem a observação direta dos
atendimentos via espelho unidirecional e a supervisão é feita
imediatamente após o mesmo.
Tal fato ocorre, quando o cliente é capaz de descrever
contingências e identificar as variáveis das quais o seu
comportamento é função.
Desta forma, a terapia é propícia para a aquisição de
autoconhecimento, sendo tarefa primordial do terapeuta
estabelecer relações funcionais entre comportamentos abertos e
encobertos e contingências e/ou regras que controlam o
comportamento do seu cliente.
Casos Clínicos
O objetivo de descrever alguns casos clínicos, é poder ilustrar
na prática terapêutica, como os aspectos considerados estão
presentes.
Caso 1: P. relatou já ter feito outras terapias, antes de ser
encaminhado ao terapeuta comportamental; mas nenhuma havia
conseguido “lidar com o seu caso” (palavras do cliente). Disse
que ouviu falar da terapia comportamental por agir diretamente
no problema, sendo desta forma eficiente.
Quando P. iniciou a terapia estava com depressão profunda; mal
conseguia sair de casa. A queixa é que tinha terminado o namoro
de aproximadamente um ano. Também relatou que há muitos anos era
deprimido e já havia feito inúmeros tratamentos, mas todos sem
efeito. Quase morrera ao tomar antidepressivos e, por este
motivo, não acreditava neste tipo de medicamento, recusando-se a
tomá-lo. Ao conhecer sua ex-namorada, M. passou a se sentir
muito melhor, como se os seus problemas tivessem terminado.
Nas sessões, E. queixava-se por não entender o porquê M. havia
terminado o relacionamento. Ele relatava que era ótimo
companheiro; limpava a casa dela, fazia comida, resolvia
assuntos burocráticos, etc. M. trabalhava o dia todo e E. estava
desempregado. Moravam em casas separadas, sendo que uma amiga da
ex-mulher de E. havia emprestado o seu apartamento para ele
morar.
E. era separado e não tinha filhos. Como estava desempregado,
não tinha dinheiro para nada e reclamava que a vida era ruim,
que “nada dava certo” (palavras do cliente). Por este motivo,
não adiantava ele procurar emprego porque não iria ter sucesso.
Conforme pode-se perceber, P. tinha um padrão de comportamento
queixoso; reclamava tanto da sua vida pessoal como profissional.
Sempre atribuía ao ambiente externo o motivo de seus fracassos.
Ao ser encaminhado à terapia comportamental, logo de imediato,
perguntou em quantas sessões estaria “curado”. O episódio a
seguir ilustra como ocorreu a interação terapeuta-cliente neste
momento:
C – “Eu vim procurar a terapia comportamental porque ouvi dizer
que ela é rápida...”
T – “O que você quer dizer com rápida?”
C – “Em algumas sessões já estarei curado...”
T – “Mas você acha que é simples assim?”
C – “Bom, falaram que a terapia comportamental vai direto ao
ponto...”
T – “E...”
C – “Se é direta, então é rápida...”
T – “Como foram as suas outras experiências terapêuticas?”
C – “Muito longas... Nem me lembro...”
T – “Por que você desistiu?”
C – “Desisti porque os terapeutas não eram bons. Nada mudou, eu
continuei deprimido...”
T – “O que você espera então?”
C – “Eu espero que você tenha a solução para o meu caso, afinal,
você é o profissional e tem o conhecimento. Só depende de
você...”
T – “Não, você está enganado; não depende só de mim, depende
muito de você”
Este episódio mostra uma situação comum enfrentada pelo
terapeuta nas sessões iniciais com o cliente. Este pensa que o
terapeuta tem a solução pronta para todas as suas queixas e,
como se fosse uma receita, dirá o que fazer e como fazer e, num
passe de mágica, estará “curado”.
Partindo da premissa que o vínculo terapêutico é o aspecto
central a ser trabalhado com o cliente, fundamentalmente no
início da terapia, o terapeuta que se vê na situação acima, deve
orientar a sua intervenção no sentido de buscar uma forma de
expor ao cliente os pressupostos da terapia comportamental (o
que é, como funciona, qual o papel do cliente, do terapeuta,
contrato, sigilo, etc.), sem no entanto, confrontá-lo de maneira
punitiva. Desta forma, é importante que reforce o fato do
cliente ter vindo, mais uma vez, procurar ajuda (já que neste
caso o histórico de vida do cliente é de frustrações com outras
terapias) e demonstre que compreende que estar lá não é fácil.
Dando seqüência à interação, o seguinte trecho demonstra tais
características:
T – “Ter vindo até aqui é muito importante, demonstra que você
está mesmo buscando ajuda. O processo terapêutico depende de nós
dois; temos que trabalhar juntos: você na sua vida lá fora e
também aqui na terapia comigo” .
Ao mesmo tempo em que o terapeuta atua como uma figura
reforçadora, fortalecendo o vínculo terapêutico, deve esclarecer
que a terapia não depende só dele, mas que é um trabalho
construído baseado em uma relação; e por ser uma relação, é uma
via de mão dupla: depende dos dois.
Ainda, o terapeuta deve discutir com o cliente se ele está
disposto a enfrentar as situações aversivas de sua vida porque,
muitas vezes, o mero queixar-se não significa estar a fim de
mudar certos padrões de comportamento. A terapia propicia o
autoconhecimento, mas é um processo que passa por momentos
difíceis e doloridos; o cliente que não estiver preparado para
tanto, não
aderirá ao que for proposto pelo terapeuta e, na primeira
situação aversiva, abandonará a terapia por fuga/esquiva.
Mais uma vez, fica claro a importância do papel do terapeuta
como uma audiência não-punitiva, no sentido de saber reforçar e
acolher o seu cliente, mas também ensiná-lo a analisar
funcionalmente a situação e torná-lo consciente das variáveis
que estão controlando o seu comportamento.
Retomando o exemplo em questão, num dado momento da terapia, o
cliente faltou duas vezes em seguida sem avisar o terapeuta. Na
terceira sessão, chegou e disse ao terapeuta:
C – “Você não me dá mesmo atenção. Eu faltei duas vezes e você
não me ligou. Você é mais um que me rejeita”
T – “Você está se comportando da mesma forma que faz sempre.
Novamente outra pessoa é responsável pelo seu comportamento”.
Neste exemplo clínico, também foi trabalhado o fato do cliente
achar que tudo dependia do outro e nada dependia dele; em outras
palavras, o terapeuta utilizou a própria definição do que é
comportamento para lidar com a questão. Partindo do princípio
que comportamento é uma interação entre indivíduo e ambiente e
que tem conseqüências e, retomando o episódio anterior, não é
correto que o cliente deposite no terapeuta (ambiente) o sucesso
ou insucesso da terapia, mas sim na relação, pois é na relação
terapêutica que há a interação e somente através dela que a
análise das contingências envolvidas pode ser realizada.
Caso 2: S. era a irmã do meio de outras duas irmãs. Sua mãe sempre exigiu que fossem ótimas alunas (e elas eram) e bem educadas. Punia fisicamente e verbalmente quando cometiam erros. O pai sempre foi quieto e ausente, “um cara apagado e triste; o que me lembro dele é que recebeu medalha de operário padrão após 30 anos no trabalho, o que eu acho ridículo” (palavras da cliente).
A irmã mais velha de S. tornou-se uma advogada bem sucedida e a
mais nova, administradora de empresas. Ambas ganhavam bem e a
mãe dizia para ela que até nisso havia errado: na escolha da
profissão. Ela era professora de inglês no secundário, mas
freqüentemente ficava sem emprego, pois brigava com as colegas
de trabalho.
O seu marido, engenheiro, trabalhava em uma empresa do governo;
conheceram-se quando estava na faculdade. Ele era quieto, pouco
afetivo com ela e com a filha de 12 anos; dedicava-se totalmente
ao trabalho. A vida sexual do casal era insípida e rotineira,
com uma média de duas relações sexuais por mês, sem ela ter
orgasmo.
S. era uma mulher sem amigos e seu lazer se resumia em assistir
televisão e ir ao shopping. Quando isto ocorria, ela e o marido
combinavam a hora e o local para se encontrar posteriormente:
ela e a filha iam para um lado e o marido para outro, nunca
conversavam.
Com a filha, o seu relacionamento “não era dos melhores”(sic”):
a menina reclamava que era uma mãe “careta”, exigente e que não
dava carinho. Quando queria conversar, a filha saía de perto.
Tinha ainda uma cunhada, irmã do marido, que era executiva de
uma multinacional. S. sentia-se mal perto desta cunhada. Segundo
ela “… me incomoda, é arrogante, acha que sabe mais do que todo
mundo; quando falo com ela me irrito demais, acabamos
discutindo” (palavras da cliente).
Desde o início da terapia, S. constantemente agredia o terapeuta
com frases como: “Sua sala é bem simples hem !!!”, “Você não é
nada vaidosa não é?”, “Engraçado...Intelectual é tudo igual...
Não se cuidam mesmo... Olha só sua sandália...”. O terapeuta
ignorava, não reagindo às provocações da cliente. As agressões
sempre aconteciam no início da sessão; até que um dia, por volta
do 4º mês de terapia, aconteceu o seguinte diálogo:
C - “Hoje estou bem triste mesmo… Puxa, hoje você caprichou, sua
roupa está feia mesmo... Parece coisa de hipe velho”
T – “Você está mesmo com uma expressão triste. O que aconteceu?”
C - “Falei que sua roupa é feia, é horrível e você nem reage?”
T - Silêncio...
C - “É... Você tem sangue de barata mesmo, ou é porque eu pago e
você tem que aguentar tudo?”
T - Silêncio
C - “Olha, pode ficar bancando a psicóloga impassível porque eu
vou embora...”.
A cliente saiu da sala e bateu porta. Voltou depois de 30
segundos, sentou-se e chorou.
Quando a cliente voltou à sala, a terapeuta fez com ela a
análise da situação. Conhecendo sua história de vida, sabia que
na história passada de S. as mulheres (mãe, irmã, cunhada)
estavam associadas a punição e eram para ela sinalizadoras de
seu fracasso e mau desempenho. Nas sessões de terapia cada vez
que se sentia mais próxima da terapeuta, ela a agredia
provavelmente por esquiva. A terapeuta não revidava e com isto
conseguiu mostrar para esta cliente que ela podia ter outro tipo
de relacionamento com as mulheres. A terapia foi planejada para
que ela desenvolvesse um melhor repertório de relacionamento em
geral, com as colegas de trabalho, a cunhada, filha, mãe, etc.
Vale a pena ressaltar que a terapeuta, quando selecionou os
estímulos sob os quais ficou sob controle, isto é, quando a
cliente verbalizou: “Hoje estou bem triste mesmo… Puxa, hoje
você caprichou, sua roupa está feia mesmo... Parece coisa de
hipe velho”, respondeu abertamente à 1ª parte da fala e ficou
com a 2ª parte como um dado a mais para análise do comportamento
do cliente. Terapeutas principiantes poderiam ficar sob controle
de seus eventos encobertos e perder aspectos significativos da
sessão.
Este relato mostra a história de uma pessoa que só viveu em
ambientes aversivos durante sua vida, sendo privada de
reforçadores importantes, como: bom relacionamento com a mãe,
com
o marido, com a filha, etc. Pelo fato de ter sido punida, passou
a se comportar agressivamente, mesmo com aqueles que não
conhecia, como o seu terapeuta.
Nas sessões, o terapeuta procurou abordar os seguintes aspectos:
1. Inicialmente, construir um vínculo com a cliente foi
primordial para que o processo terapêutico pudesse progredir,
principalmente pelo fato de sua história de vida ser marcada
pelo uso constante da punição;
2. Reforçar positivamente qualquer comportamento adequado, de
forma que a cliente pudesse perceber outras formas de
relacionamento interpessoal, que não a punição;
3. Busca de novos reforçadores: procurar atividades pela qual se
interessasse, como cursos, trabalhos voluntários, etc. para
criar condições da cliente interagir em outros ambientes e ser
reforçada;
4. Autoconhecimento: Tornar a cliente consciente das variáveis
que estariam controlando o seu comportamento e, a partir daí,
propor situações de mudança. A assertividade foi um assunto
discutido exaustivamente, no sentido de ensinar à cliente formas
de contra-controlar o ambiente quando este se tornasse punitivo;
5. Generalização: Aos poucos, o que foi aprendido em terapia, se
generalizou para a situação natural da cliente, que desenvolveu
um repertório comportamental adequado para se relacionar e ser
reforçada ao invés de punida.
A partir do relato destes casos, pode-se perceber que o
fundamental para o sucesso da terapia foi o vínculo estabelecido
entre o terapeuta e o cliente, e que para que o contato
terapêutico provoque mudanças reais na vida do cliente é
necessário o uso do reforçamento natural ao invés do arbitrário.
Desta forma, o terapeuta pode ser considerado como uma audiência
não-punitiva,conforme ressaltado por Skinner (1953/1998). De
acordo com o autor:
(...) Do ponto de vista do paciente, o terapeuta em princípio é
apenas mais um membro de uma sociedade que tem exercido
excessivo controle. É tarefa do terapeuta colocar-se em situação
diferente.Evita portanto consistentemente o uso de punição. (…)
À medida que o terapeuta gradualmente se estabelece como uma
audiência não-punitiva, o comportamento que até então foi
reprimido começa a aparecer no repertório do paciente. (…) O
aparecimento do comportamento previamente punido na presença de
uma audiência não-punitiva torna possível a extinção de alguns
efeitos da punição. Esse é o principal resultado da terapia
(p.405).
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