Entrevista: B.F. SKINNER
Revista Veja, 15 de junho de 1983
Estado de alerta máximo
O grande papa da ciência do comportamento identifica em problemas
como a ameaça nuclear ou a superpopulação perigos inéditos para o
mundo
Por Selma Santa Cruz.
Com suas teorias pioneiras sobre o comportamento humano e as
possibilidades de seu controle, nos anos 50 e 60, ele não ficou
apenas célebre: chegou a ser comparado a Freud. Professor da
Universidade de Harvard e expoente máximo da psicologia americana,
B.F. Skinner (B. de Burrhus e F. de Frederic) é o grande papa da
chamada “ciência do comportamento”, o behaviorismo.
Em síntese, suas
idéias sugerem que tudo pode ser perfeitamente previsível e,
portanto, perfeitamente controlável no comportamento humano. Não é o
indivíduo que controla o meio ambiente, e sim o contrário – este é o
ponto de partida de sua teoria. Sendo assim, o homem reagiria a
estímulos – da mesma forma que um rato, num laboratório, apresenta
reações de medo ou satisfação, violência ou docilidade, desde que
adequadamente estimulado.
Skinner:
É preciso fazer algo
As idéias de Skinner propunham uma revolução nas ciências humanas –
e jamais, desde que foram enunciadas, deixaram de provocar
polêmicas. Alguns saudaram, na sua sugestão de que o indivíduo
poderia ser induzido a agir de forma positiva ou negativa, uma vez
convenientemente levado a uma ou outra direção, a possibilidade de
surgimento de um homem novo. Outros, porém, logo suspeitaram nas
técnicas de controle por ele formuladas um ranço totalitário capaz
de produzir regimes tirânicos.
Nos últimos meses, e agora já quase lendário aos 79 anos, B.F.
Skinner voltou a freqüentar as paginas dos jornais com uma mensagem
alarmista: a espécie humana, repete ele, caminha para a extinção. Ao
mesmo tempo, ele cativa audiências ao aplicar sua controvertida
técnica de controle do comportamento contra um inimigo
universalmente detestado: a velhice, tema de seu ultimo livro,
prestes a ser publicado, Vivendo bem a velhice. Skinner, na verdade,
apresenta-se como a melhor propaganda do método que anuncia: quase
octogenário, ele ainda trabalha diariamente em seu escritório de
Harvard e viaja pelo mundo todo para conferências.
Pode ser esta a última chance do doente
VEJA- O senhor sempre afirmou que o avanço nas ciências humanas,
sobretudo na psicologia, abriria caminho para uma civilização mais
avançada, quase utópica, mas, ultimamente, tem parecido muito
pessimista. O que mudou?
SKINNER- Ainda acredito que as técnicas de mudança de
comportamento permitem um progresso grande, particularmente em áreas
específicas, como o uso da educação programada nas escolas para
acelerar a aprendizagem, a criação de sistemas de incentivo na
indústria para aumentar a produtividade e, naturalmente, em
psicoterapia. Nesse sentido, o behaviorismo, ao esclarecer como o
homem age em função de estímulos positivos ou negativos, pode ter um
impacto positivo, no futuro imediato, contribuindo para uma
sociedade mais bem informada, rica e satisfeita. Mas estamos
ameaçados pelas conseqüências que nossas ações atuais, como corpo
social, terão no futuro distante. E é por isso que estou tão
pessimista. O mundo está caminhando para o desastre, confrontando
com problemas em escala inédita.
VEJA- Que problemas são esses?
SKINNER- A superpopulação, por exemplo. Parece óbvio para
qualquer pessoa sensata que há um limite para a quantidade de seres
humanos que podem viver no planeta, mas não se está fazendo um
esforço sério para lidar com a questão. Temos 4,5 bilhões de
pessoas, pelo menos metade das quais subnutridas – e, como não
estamos conseguindo resolver o problema delas, nada indica que os
outros bilhões que virão terão sorte muito diferente. Estamos
destruindo o meio ambiente, consumindo recursos naturais em ritmo
mais rápido do que eles se repõem. Todos os estudos científicos
mostram que estas práticas, hoje, levam ao desastre, mas não estamos
tentando seriamente promover mudanças. E, pior de tudo, há a ameaça
nuclear. È mais do que óbvia a necessidade de conter o arsenal
nuclear, mas um balanço das últimas décadas mostra que não estamos
tendo sucesso nesse sentido. Pelo contrário, do jeito que as coisas
vão, parece cada vez mais improvável que as potências cedam na
resolução de conflitos.
VEJA- Ao longo da história, a raça humana superou variadas espécies de conjunturas desfavoráveis que pareciam, à época, insolúveis. Por que não resolveríamos os problemas, desta vez?
SKINNER- Este argumento é como consolar um doente que está morrendo
lembrando que, afinal, ele esteve doente outras vezes e sempre se
recuperou. O mundo pode estar chegando a uma condição única, em que
pela primeira vez, na história, está de fato morrendo – e não
estamos fazendo nada para salvá-lo.
O homem nada faz sem estímulos
VEJA- Movimentos como o pacifista e o ecológico não mostram uma consciência nova sobre os problemas que o senhor aponta? Já não estaria havendo algum progresso, sobretudo na preservação do meio ambiente?
SKINNER- Alguns setores da população, o chamado “quarto estado”, que
engloba cientistas, professores, profissionais da informação e
intelectuais em geral – em relação aos três estados tradicionalmente
dominantes: governo, igreja e empresariado -, realmente dão sinais
de consciência do problema. Fazem-se passeatas, manifestos. Mas não
é assim que se consegue mudar o comportamento de 4,5 bilhões de
pessoas. Se você falar com a maioria dos acadêmicos aqui em
Cambridge, eles reconhecerão que é um absurdo uma pessoa ir de carro
particular até Boston, desperdiçando gasolina e poluindo o ar,
quando poderia muito bem tomar o metrô. Mas o único jeito de fazer
com que as pessoas realmente tomassem o metrô seria se o governo as
induzisse a isto, cobrando pedágios bem mais caros no túnel para
Boston, por exemplo. Porque a única forma de promover as mudanças
necessárias e com a rapidez necessária – isto é, controlar o
crescimento demográfico, promover estilos de vida mais simples, com
menos desperdício e prejuízo para o meio ambiente -, seria se a
indústria, a igreja ou o governo, os que têm poder, se dispusessem a
implementá-las.
VEJA- Mas pelo menos nos casos das democracias, não é verdade que os governos e mesmo a indústria costumam ser induzidos a promover mudanças quando elas se tornam indispensáveis?
SKINNER- Acho que os detentores do poder econômico, os que têm
dinheiro, vão continuar a usá-lo para produzir lucros rápidos, sem
qualquer preocupação com os problemas globais. As coisas a este
nível são tão pouco planejadas que um país como o México pode ir à
bancarrota de repente, e pegar o mundo financeiro desprevenido.
Quanto aos políticos, eles estão sempre preocupados com a próxima
eleição e, portanto, indispostos a pregar sacrifícios hoje, para
preservar o futuro. Durante o momento mais crítico da crise
energética, alguns países impuseram limites no consumo de petróleo,
mas, tão logo passada a emergência, voltamos aos
velhos hábitos, embora a ameaça de escassez continue presente.
Deveríamos ter leis severas para favorecer o transporte público,
manter baixa a temperatura dos aquecedores no inverno e limitar o
uso dos aparelhos de ar-condicionado no verão – isto em base
permanente. Mas o problema é que os políticos não querem o ônus de
um programa necessariamente impopular e nossa sociedade está voltada
para a gratificação imediata, o conforto absoluto. Chegamos a um
ponto em que tornou-se imperativo tomar medidas para preservar o
planeta e a espécie. E não estamos fazendo isto.
VEJA- Mas existe alguma fórmula para fazer com que as pessoas aceitem o sacrifício? É possível sensibilizá-las para este futuro distante?
SKINNER- É característico da espécie humana agir em função apenas do
futuro mais próximo e da experiência passada. Porque o futuro mais
distante não existe, no sentido de que não foi experimentando.
Ninguém toma uma estrada desconhecida sem razão. Se entrar nela é
porque lhe disseram que tem paisagem bonita, ou que tem alguma
vantagem sobre as outras. Da mesma forma, o homem não faz nada sem
uma expectativa, um estímulo que encoraje ou desencoraje seu
comportamento.Sobretudo quando é algo para o futuro distante.
Instituições como a igreja, governo e indústria sempre usaram estes
reforços de comportamento para fazer com que as pessoas trabalhassem
para o futuro. A indústria acena com a recompensa do salário para
que seus empregados produzam. Governo e religião sempre souberam
manipular a técnica do prêmio ou castigo para induzir as pessoas a
dar a vida por suas causas. Infelizmente, o futuro destas
instituições não coincide necessariamente com o interesse da
preservação da espécie. Há um consenso de que é preciso conter o
crescimento demográfico. Mas o empresariado não se importa –
crescimento zero é péssimo para o mercado. Os governos também não se
importam – a força dos exércitos depende da disponibilidade de
recrutas. E, como já disse, os políticos estão mais preocupados é
com a próxima eleição.
Males e exageros da “liberdade nervosa”
VEJA- Pelo que o senhor diz seria preciso impor estas mudanças, já que elas não são populares. Mas isto não extinguiria um regime autoritário?
SKINNER- Quando escrevi meu livro Além da liberdade e da dignidade,
há dez anos, fui acusado de estar descartando os valores mais caros
da civilização, propondo a manipulação das massas Mas isto era uma
simplificação grosseira. O que digo é que a satisfação material é um
valor perigoso, e as sociedades afluentes foram bem-sucedidas demais
em garanti-la. Nas sociedades avançadas, elevou-se o direito
individual a valor absoluto – o direito, por exemplo, de se consumir
quanto se deseja, sem interferências, mesmo que estes padrões de
consumo sejam em detrimento do meio ambiente e do todo social. Nas
sociedades mais avançadas, praticamente acabamos com as formas de
controle punitivo. Em educação somos extremamente complacentes, a
justiça dá sentenças generosas para criminosos, prisões são
consideradas uma afronta à dignidade humana. Acho que houve uma
evolução positiva, não estou defendendo a volta da palmatória ou da
guilhotina, mas acho que há um exagero neste conceito de direito do
indivíduo. Não se trata de abrir mão da liberdade, mas quando se
começa a falar em direito dos animais, direito de se andar de
motocicleta sem capacete, direito de usar carros poluentes ou
direito dos fetos, há sem dúvida um exagero. É o que chamo de
“Libertas Nervosa”.
VEJA- Como assim?
SKINNER- Trata-se de uma comparação com a anorexia nervosa, a doença
em que a pessoa, para perder peso, faz uma dieta, mas não consegue
parar quando atinge o equilíbrio e continua a dieta até a
desnutrição. Não digo que as sociedades afluentes tenham que abrir
mão do
respeito à liberdade e dignidade individuais, mas que, levados ao
extremo, estes valores podem ameaçar a sobrevivência da sociedade
como um todo. Se você elege em direito absoluto do indivíduo ter
quantos filhos quiser, poluir a atmosfera a seu bel-prazer ou
consumir recursos não renováveis no ritmo que desejar, estamos
bloqueando nossa possibilidade de promover novas formas de
comportamento que garantam o futuro de toda a sociedade. Já sabemos
o suficiente sobre o comportamento humano para poder recorrer a
estímulos que induzam a mudanças de comportamento necessárias para
resolver estes problemas graves que nos desafiam. Mas não faremos
nada se ficarmos presos à noção de que isto interfere com a
liberdade dos indivíduos.
Tudo pode ser usado para fins sinistros
VEJA- Quando se começa a abrir mão desta liberdade, não há risco de grupos no poder usarem estas práticas de controle sem considerar o bem comum? E quem é que decide qual é o bem comum?
SKINNER- Claro que o ideal seria o príncipe esclarecido de
Maquiavel, ou o rei-filósofo de Platão. Mas o problema com estes
regimes ditatoriais é que eles bloqueiam o progresso, tendem à
estagnação, enquanto sociedades com grau maior de liberdade evoluem
mais rapidamente. Não acho que as sociedades marxistas, onde há
controle absoluto, sejam mais eficientes - e não gostaria de morar
na URSS, porque mesmo que os homens do topo tenham boas intenções, a
vida dos cidadãos é desinteressante e cheia de inconveniências. Não
acredito que seria preciso uma sociedade fechada, com um grupo
manipulando as massas, para promovermos as mudanças de comportamento
que defendo. Meu ponto é justamente que seria possível, usando nosso
conhecimento sobre o comportamento humano, sensibilizar as pessoas
para estes problemas e induzi-las, de forma positiva, a mudar.
VEJA- A educação seria um caminho?
SKINNER- O sistema educacional seria, sem dúvida, o ponto onde
atacar. Mas não tenho qualquer esperança. O sistema educacional
atual é o grande escândalo de nossa civilização, totalmente
ultrapassado. Através da ciência do comportamento, desenvolvemos a
educação programada, por exemplo, em que os estudantes usam
materiais projetados especialmente para recompensar o avanço de cada
um na aprendizagem – e torná-la mais rápida e interessante. Alguns
setores pioneiros a adotam, mas, quase trinta anos depois, a maioria
das escolas ainda resiste à idéia de educação programada, alegando
que ela é massificante, ou que não respeita a individualidade e
originalidade de cada indivíduo. Não vejo como educação programada
seria mais massificante do que a televisão, por exemplo, mas isto
ilustra bem como estamos presos a conceitos às vezes ultrapassados.
VEJA- E o senhor não vê qualquer possibilidade de mudança?
SKINNER- Se eu tivesse que prever o estado da sociedade daqui a 100
anos, se sobrevivermos a um desastre atômico, diria que haverá
infelizmente um único governo autoritário – porque a esta altura
este tipo de regime terá se tornado imperativo para controlar o
crescimento populacional, a poluição e o consumo de recursos não
renováveis.O Lamentável é que temos tecnologia e conhecimentos
suficientes sobre comportamento para construirmos um mundo
diferente, mas não somos capazes.
VEJA- Para muitas pessoas, Skinner e behaviorismo, embora já incorporados à ciência, ainda são sinônimos de manipulação de comportamento e possibilidades sinistras. Isso o incomoda?
SKINNER- Eu estou é preocupado com a escalada das armas nucleares,
mas não culpo Einstein por isto. Lamento, como todo mundo, que
certas drogas pesquisadas com fins
farmacêuticos sejam usadas por viciados, mas nem por isso vai
defender-se o fim da pesquisa farmacêutica. Não se acaba com os
automóveis porque motoristas bêbados os usam para matar. Tudo pode
ser usado para fins sinistros e isto vale para a tecnologia do
comportamento. O fato é que pessoas habilidosas sempre souberam
manipular o comportamento de outras. Só que o faziam intuitivamente,
como uma arte. Alguns tinham o talento, outros não. Com o
behaviorismo, explicamos como isto se faz.
VEJA- Ultimamente o senhor está popularizando estratagemas para superar os desconfortos da velhice. Até que ponto é possível retardar a senilidade mental?
SKINNER- A velhice é como o cansaço, com a diferença de que você não
a elimina tirando férias ou uma soneca. Mas ela não precisa ser
necessariamente o fim de qualquer atividade intelectual
gratificante. Com este meu novo livro, eu terei publicado seis deles
desde que completei 70 anos, o que é uma marca excelente para
qualquer acadêmico. Isto foi possível porque, usando os
conhecimentos desenvolvidos em laboratórios sobre comportamento
humano, eu arranjei minha rotina de forma a que eu possa render
tanto quanto possível. O segredo é justamente a lição do
behaviorismo, de que nosso comportamento é pautado por reforços
positivos ou negativos do meio ambiente. Você age de um modo, e há
sempre conseqüências. Se elas são positivas para você, a tendência é
repetir o comportamento. O problema é que na velhice somos
gradualmente privados de todo tipo de reforço. O segredo é buscar
formas de comportamentos que compensem.
VEJA- Por exemplo?
SKINNER- Na velhice não se sente bem o sabor dos alimentos, perde-se
o apetite. Muitos desistem de apreciar música porque ouvem mal.
Perdem-se os amigos, o sexo já não é estimulante, a aposentadoria
elimina os estímulos profissionais e financeiros. Sem todos estes
reforços, é compreensível que muitos velhos sejam derrubados pela
depressão. É preciso aprender a trabalhar menos horas, perceber
quando a fadiga mental interfere, saber então descansar
profundamente para que o trabalho, quando reiniciado, seja
gratificante.
Truques para ajudar na velhice
VEJA- Pode-se usar um aparelho para a perda auditiva. Mas e a perda da memória?
SKINNER- Há pequenos truques que explico no livro para contornar a
perda da memória, alguns bem simples. O importante é aceitar a
deficiência e achar um jeito de combatê-la. Andar sempre com papel e
lápis no bolso, por exemplo, ou um gravador, para registrar na hora
todas as idéias antes que elas se percam. Procurar formas de lazer
adequadas. Eu gostava de ler Balzac, mas a boa literatura é mais
cansativa. Jogos complicados, como o xadrez, também não são
adequados. Se se tiver a humildade de ler coisas mais simples, na
hora do lazer, ou mesmo assistir televisão, pode-se realmente
relaxar, para ser capaz, depois, de trabalhar produtivamente algumas
horas. É preciso fazer um esforço para experimentar coisas novas,
projetar quase cientificamente uma rotina e um estilo de vida que
ofereçam estímulos específicos para substituir os que a sociedade e
a deterioração física vão gradualmente eliminando.
Para citação (APA):
Skinner, B.F. (1983, julho 15). Estado de alerta máximo. Veja,
03-06. (entrevista).